{"id":1705,"date":"2022-08-22T07:48:19","date_gmt":"2022-08-22T10:48:19","guid":{"rendered":"https:\/\/brcnoticias.com.br\/?p=1705"},"modified":"2022-08-22T07:48:19","modified_gmt":"2022-08-22T10:48:19","slug":"eleicoes-geram-silenciamento-e-rachas-geracionais-em-familias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/brcnoticias.com.br\/index.php\/2022\/08\/22\/eleicoes-geram-silenciamento-e-rachas-geracionais-em-familias\/","title":{"rendered":"Elei\u00e7\u00f5es geram silenciamento e rachas geracionais em fam\u00edlias"},"content":{"rendered":"<p>Calar-se sobre pol\u00edtica foi a estrat\u00e9gia adotada por Marcelo Moretti Fioroni, 52, para conviver com o pai, um bolsonarista de 82 anos. A discord\u00e2ncia gerou discuss\u00f5es e a sensa\u00e7\u00e3o de solid\u00e3o e ang\u00fastia.<\/p>\n<p>\u201c<em>Tem horas que eu argumento e chego a bater boca com ele. Nunca imaginei fazer isso<\/em>\u201d, afirma o engenheiro, que come\u00e7ou a fazer terapia antes da pandemia de Covid e viu as crises devido a debates pol\u00edticos se tornarem o assunto predominante das sess\u00f5es. \u201c<em>Virei a ovelha vermelha da fam\u00edlia<\/em>.\u201d<\/p>\n<p>Evandro Botteon, 37, e a sogra Solange Sales Ara\u00fajo, 61, tamb\u00e9m selaram um pacto de sil\u00eancio h\u00e1 dois meses, ap\u00f3s uma discuss\u00e3o durante um jantar da fam\u00edlia, em Campinas, virar uma confus\u00e3o que fez o genro deixar o local. No dia seguinte, vieram o choro de arrependimento e o pedido de perd\u00e3o.<\/p>\n<p>O petroleiro diz ser uma pessoa \u201c<em>atravessada pela pol\u00edtica<\/em>\u201d e que as rela\u00e7\u00f5es se acirraram na fam\u00edlia a partir de 2018, quando Jair Bolsonaro (PL) se elegeu.<\/p>\n<p>J\u00e1 a advogada afirma que evita mencionar o nome do presidente para n\u00e3o gerar desconforto e que n\u00e3o v\u00ea problema em ter filhos e irm\u00e3s com posicionamento diferente. Para evitar brigas com elas, apoiadoras de Lula (PT), diz ter silenciado notifica\u00e7\u00f5es no WhatsApp.<\/p>\n<p>Na fam\u00edlia de Cl\u00e1udia Alvarenga, 53, o sil\u00eancio sobre pol\u00edtica come\u00e7ou h\u00e1 mais tempo, desde 28 de outubro de 2018, quando uma cunhada e uma irm\u00e3 compartilharam postagens celebrando a elei\u00e7\u00e3o de Bolsonaro, rebatidas com coment\u00e1rios cr\u00edticos pelas filhas da empreendedora.<\/p>\n<p>\u201c<em>O problema n\u00e3o \u00e9 ter uma posi\u00e7\u00e3o diferente. S\u00f3 que o di\u00e1logo fica escasso, e situa\u00e7\u00f5es desconfort\u00e1veis e sentimentos s\u00e3o empurrados para debaixo do tapete<\/em>\u201d, afirma Alvarenga. Para ela, a terapia n\u00e3o chega a resolver a quest\u00e3o, que afeta o sono e causa irrita\u00e7\u00e3o. Evang\u00e9lica, tem recorrido ao lado espiritual.<\/p>\n<p>Marina, 20, uma das filhas envolvidas no epis\u00f3dio, define a rela\u00e7\u00e3o familiar como engessada, com regras sobre o que pode ou n\u00e3o ser dito nos encontros. Ela diz ter sido bloqueada nas redes pela tia, que n\u00e3o quis falar com a reportagem.<\/p>\n<p>\u201c<em>At\u00e9 hoje me sinto um pouco desconfort\u00e1vel, mas bem menos do que antes. Entendo que s\u00e3o posicionamentos diferentes e que n\u00e3o estou aqui para convencer algu\u00e9m de um lado ou de outro, mas \u00e9 ruim, porque queria que a gente conseguisse conversar, o que infelizmente n\u00e3o acontece.<\/em>\u201d<\/p>\n<p>Inferno \u00e9 a palavra usada pela maquiadora Juliana Thais, 27, moradora de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, para definir o ano de 2018. Ela diz que chorava com os insultos do pai, um bolsonarista. H\u00e1 dois meses, decidiu se distanciar e morar com o noivo, o que melhorou a rela\u00e7\u00e3o com o familiar, marcada por provoca\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A m\u00e3e de Juliana, a dona de casa Tam\u00e1ra Ulrich Paes dos Santos, 51, identifica-se como de direita. Mas em vez de expressar seu ponto de vista, ela diz que tenta manter a neutralidade em casa, porque a situa\u00e7\u00e3o familiar \u201c<em>causa tristeza<\/em>\u201d, com o marido \u201cmais agressivo com parentes do que com pessoas de fora\u201d. Para ela, h\u00e1 imaturidade de um lado e intoler\u00e2ncia do outro.<\/p>\n<p>Segundo pesquisa Datafolha realizada de forma presencial com 2.556 pessoas no final de julho, 49% dos eleitores deixaram de falar sobre pol\u00edtica com pessoas pr\u00f3ximas. A situa\u00e7\u00e3o atinge 54% dos que declaram voto em Lula e 40% dos que apoiam Bolsonaro. Do total, 15% disseram ter recebido amea\u00e7a verbal, e 7%, f\u00edsica. Situa\u00e7\u00f5es de constrangimento por posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas nos \u00faltimos meses foram relatadas por 54%.<\/p>\n<p>Professor do Instituto de Psiquiatria e coordenador do programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em psiquiatria e sa\u00fade mental da UFRJ, William Berger afirma que a sociedade tem encarado a pol\u00edtica como algo dicot\u00f4mico e que as brigas e os ressentimentos geram sofrimento ps\u00edquico, o que, obviamente, piora a qualidade de vida.<\/p>\n<p>\u201c<em>O suporte social \u00e9 um dos principais escudos que temos contra transtornos mentais. Quanto maior for o seu v\u00ednculo com familiares e amigos, mais protegido est\u00e1 contra o aparecimento de transtornos mentais<\/em>.\u201d<\/p>\n<p>Para a psic\u00f3loga cl\u00ednica e psicanalista Clara Lins, acabar com os conflitos \u00e9 imposs\u00edvel e, assim, o maior problema \u00e9 a forma como lidamos com eles, em especial quando usados para descarregar impulsos destrutivos.<\/p>\n<p>\u201c<em>A gente v\u00ea um crescimento do sentimento de desamparo e de solid\u00e3o, de enfraquecimento do v\u00ednculo. \u00c9 claro que isso vai gerar um aumento do sintoma f\u00edsico, psicossom\u00e1tico e emocional.<\/em>\u201d<\/p>\n<p>A psiquiatra Vanessa Flaborea Favaro, diretora dos ambulat\u00f3rios do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Cl\u00ednicas da Faculdade de Medicina da USP, ressalta que esse cen\u00e1rio \u00e9 ainda mais impactante para os jovens, por ser um momento da vida de forma\u00e7\u00e3o da cidadania e participa\u00e7\u00e3o social mais ampla.<\/p>\n<p>\u201c<em>Os jovens j\u00e1 t\u00eam as emo\u00e7\u00f5es naturalmente mais afloradas, ent\u00e3o acabam ficando muito angustiados, porque querem se posicionar. Eles s\u00e3o muito apaixonados pelas pessoas que defendem<\/em>\u201d, afirma ela.<\/p>\n<p>Apesar dessa leitura, a soci\u00f3loga Esther Solano, professora da Unifesp e uma das coordenadoras da pesquisa qualitativa \u201cJuventude e Democracia na Am\u00e9rica Latina\u201d, realizada com jovens de 16 a 24 anos de Brasil, Argentina, Col\u00f4mbia e M\u00e9xico, diz que o estudo mostrou outra realidade.<\/p>\n<p>\u201c<em>Jovens bolsonaristas que t\u00eam pais lulistas e vice-versa simplesmente n\u00e3o falam sobre pol\u00edtica na fam\u00edlia. O que percebo \u00e9 um silenciamento. Eles preferem falar em outros c\u00edrculos sociais a discutir em casa<\/em>\u201d, diz ela, acrescentando que eles tamb\u00e9m se censuram na escola, o que afirma ser um legado do movimento Escola Sem Partido, que prev\u00ea puni\u00e7\u00f5es para professores que fa\u00e7am proselitismo pol\u00edtico em sala de aula.<\/p>\n<p>Por terem perfil mais combativo, os jovens podem manifestar ansiedade e at\u00e9 crises de p\u00e2nico, diz Berger, da UFRJ. Entre idosos, a tend\u00eancia \u00e9 ficarem mais isolados e apresentarem quadros depressivos. Diante de situa\u00e7\u00f5es de estresse devido \u00e0 pol\u00edtica, os especialistas destacam que \u00e9 preciso observar de que forma esses conflitos impactam outras atividades cotidianas, j\u00e1 que h\u00e1 risco de derrames e infartos.<\/p>\n<p>\u201c<em>Quando a gente est\u00e1 estressado cronicamente, h\u00e1 mudan\u00e7as no corpo. Assim, temos mais chances de desenvolver problemas de press\u00e3o ou ligados ao metabolismo, o que provoca muitas doen\u00e7as cardiovasculares<\/em>\u201d, afirma Favaro, do Hospital das Cl\u00ednicas.<\/p>\n<p>A psiquiatra diz que \u00e9 preciso aprender a relaxar apesar da tens\u00e3o e criar formas de cuidar da sa\u00fade mental de forma mais ampla.<\/p>\n<p>Berger, por sua vez, ressalta que sintomas como irritabilidade, interfer\u00eancia no sono e elevado n\u00edvel de cansa\u00e7o di\u00e1rio mostram a necessidade de procurar ajuda. Os cuidados gerais incluem suporte social, atividades f\u00edsicas e outras op\u00e7\u00f5es, como medita\u00e7\u00e3o e psicoterapia.<\/p>\n<p>\u201c<em>O primeiro passo \u00e9 reconhecer que n\u00e3o somos invulner\u00e1veis. Depois, \u00e9 preciso tentar reduzir os estigmas ligados aos transtornos mentais<\/em>.\u201d<\/p>\n<p>Via <strong>Pol\u00edtica Livre<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Calar-se sobre pol\u00edtica foi a estrat\u00e9gia adotada por Marcelo Moretti Fioroni, 52, para conviver com o pai, um bolsonarista de 82 anos. A discord\u00e2ncia gerou discuss\u00f5es e a sensa\u00e7\u00e3o de solid\u00e3o e ang\u00fastia. \u201cTem horas que eu argumento e chego a bater boca com ele. 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